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Ser verdadeiro com seu filho é a melhor maneira de protegê-lo

Não tem jeito babão, não se fala em outra coisa nesse país, é só Coronavírus. Mas pensando pelo nosso lado de pai, logo nos vem à cabeça. A Atual experiência cotidiana soma uma série de perdas; não tem escola, não tem atividade de contraturno, não tem amigo para brincar de tarde no quintal, não tem visita da vovó. Na contramão do sossego, chegam as incertezas, muitas notícias, contradições e o medo. Pais estão preocupados e desorganizados, já que a vida das crianças está mudando e mudará mais ainda nas próximas semanas. A grande questão é como vamos falar com elas sobre a dimensão da pandemia de coronavírus? 

Todo mundo sabe que, quando crianças fazem perguntas, os adultos devem responder a verdade. O problema é que, muitas vezes, as crianças perguntam coisas que não sabemos, não queremos ou não temos coragem de responder. É bem nessa hora que inventamos uma saída muito pouco efetiva, nós, os supostos adultos, mentimos para os nossos filhos nas mais diferentes versões e intensidades que uma mentira pode assumir.

Ser verdadeiro com seu filho é a melhor maneira de educá-lo - Papo de Pai

Isso inclui as cegonhas que trazem bebês, frutos de desejo sem sexo e da vida sem erotismo, ou promessas heróicas de que todos os que amamos têm vida longa. Por determinação da nossa fantasia de potência, incluímos no pacote da “proteção” esconder dos nossos queridos as notícias sobre doenças, da mesma forma que omitimos as pistas das nossas dificuldades e fracassos. É assim que produzimos a grande mentira da vida asséptica, controlável e que, supostamente, pode ser decidida por vontades individuais. 

Se concordamos que as crianças se beneficiam de uma relação verdadeira com a experiência da sua vida, o dever de incluí-las na conversa sobre os fatos que agem sobre elas mesmas não pode ser uma dúvida.

Ser verdadeiro com seu filho é a melhor maneira de educá-lo - Papo de Pai

Temos, porém, que pensar como conversaremos com as crianças, de que jeito? Quais informações compartilhar? Em que momento?

Dizer a verdade para as crianças não se trata de colocá-las no lugar de um interlocutor adulto, de um jovem médico ou de um cientista. Mas também não é supor que elas não têm condição de compreender suas vidas e o que as afeta. Minha avó já dizia que com as crianças falamos da maneira que elas podem entender. 

Como ser verdadeiro com seu filho?

Ser verdadeiro com seu filho é a melhor maneira de educá-lo - Papo de Pai

O primeiro passo é escutar a pergunta, absorver o questionamento e despertar a curiosidade: o que essa criança quer saber quando me pergunta sobre o coronavírus? O que ela já sabe? De onde veio essa informação? O que exatamente a preocupa? Essas perguntas nos ajudam a alargar a conversa. E estender a conversa já é uma forma de acalmar e de acolher. As coisas que não sabemos responder, pesquisamos juntos. E como é importante que possamos não saber junto com as crianças.

Muito rápido, aprendemos que não falamos com todas as pessoas do mesmo jeito. Isto é, não falamos com todas as crianças de sete anos da mesma maneira ou com todas as de três de outra. Manuais sobre isso, sozinhos, não nos ajudam muito a escutar os nossos interlocutores. 

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A pergunta que nos ronda, porém, é muito mais ampla e séria do que um manual de padronização adequado pode dar conta. O que está em jogo é muito mais do que instruções sobre cuidados e proteção. Nós, adultos,  vamos precisar de calma para entender como, nesse cenário, as experiências da verdade e da cidadania se articulam no cuidado com as pessoas. 

Não podemos esquecer que as crianças participam da ocupação das cidades e que seu enlace com os outros é uma experiência política. No caso específico dessa pandemia, o lugar das crianças não é qualquer: elas são veículos potentes de transmissão e, muito embora não sejam especialmente vulneráveis, afetam as populações mais frágeis, como seus avós, que, na maioria dos casos, compõem o grupo de maior risco de agravamento do quadro clínico produzido pelo Covid-19. Seu lugar também não é qualquer, porque, em nossa organização social, quando as escolas fecham, um elo fundamental da cadeia produtiva se quebra, e todo o esquema das nossas vidas fura.

Ser verdadeiro com seu filho é a melhor maneira de educá-lo - Papo de Pai

Diante do coronavírus, respostas individuais são radicalmente ineficientes. Entre adultos, temos falado sobre os modos como a pandemia de coronavírus apresenta a estrondosa conta do desinvestimento na ciência e na pesquisa. Mas é fato também que muitos adultos ainda não tinham percebido a dimensão coletiva da experiência de saúde, os efeitos de uns sobre outros, a responsabilidade que isso impõe a cada um e, finalmente, o caráter público que essa cadeia impõe ao cuidado. 

Como explicar para uma criança que ela não tem escola e também não pode ficar na companhia da vovó? E se, além disso, tivermos que dizer que seus pais e cuidadores não foram dispensados do trabalho e que estão com muita dificuldade de administrar esse novo problema? Será que as crianças vão ficar culpadas, será que vão se tomar no lugar do problema? 

Ser verdadeiro com seu filho é a melhor maneira de educá-lo - Papo de Pai

A ideia não é agradecer ao coronavírus e nem às patologias sociais que nos trouxeram até essa condição. Ao contrário, a reflexão se coloca como resposta necessária a um problema criado por nosso jeito humano de ser e de nos organizamos. A oportunidade, diante da infância, acredito, é que possamos incluir as crianças no debate sobre nossa organização social. 

A conversa sobre a situação em que cada um se encontra é também uma conversa sobre a humanidade, no mais profundo sentido que essa palavra pode expressar. Acolher o estranhamento e a tristeza da criança diante das mudanças súbitas em sua rotina é fundamental. Estamos todos estranhando. E elas também.

 

 

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