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Rede social, definitivamente, não é lugar para criança

As duas edições do programa MasterChef, exibido pela Band desde 2014, foram um sucesso nas redes sociais. Serviram de bom exemplo do fenômeno conhecido como segunda tela – quando o espectador assiste à TV enquanto comenta na internet sobre o que está assistindo. Os participantes e jurados viraram celebridades instantâneas na rede. Isso criou grande expectativa para o MasterChef Júnior, com participantes entre 9 e 13 anos. Mas a segunda tela, desta vez, tornou-se um cenário de horror. Amparados na falsa ideia de que a internet é uma terra sem lei, usuários poluíram o Twitter com mensagens de incentivo à agressão sexual e à homofobia. Garotos de 10 anos foram chamados de “bichas” e “viados”. Os comentários mais chocantes trataram da participante Valentina Schulz, de 12 anos. “A culpa da pedofilia é dessa mulecada (sic) gostosa”, escreveu @kemper_guedes. “Sobre essa Valentina, se tiver consenso é pedofilia?”, escreveu @andersoberano. O nome da garota foi parar nos assuntos mais comentados do Twitter. “Estávamos preparados para o assédio, mas não imaginávamos encontrar tarados”, disse o publicitário Alexandre Schulz, Pai de Valentina, ao portal iG. “Teve gente que pediu que ela mandasse foto nua.”

Rede social, definitivamente, não é lugar para criança Valentina, participante do programa MasterChef Júnior

Os culpados nesse tipo de ataque, é óbvio, são os assediadores e agressores, e não as vítimas e suas famílias. O problema é que a maioria dos pais parece subestimar os riscos. Engana-se quem pensa que o problema com Valentina ocorreu apenas por ela estar em evidência na televisão. O assédio a menores em redes sociais e aplicativos ocorre em tempo integral. Uma pesquisa recente mostra que ainda são poucos os pais e responsáveis por crianças no Brasil que impõem regras de uso na internet para seus filhos. O estudo, coordenado pela consultoria paulistana Officina Sophia, ouviu 1.000 crianças, entre 7 e 12 anos, que usam a internet, em diferentes capitais brasileiras, sempre acompanhadas de um maior de idade. Do total, 65% disseram não ter regras ou tempo determinado para acessar a internet.

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Alguns dados alarmantes sobre a internet

 

Rede social, definitivamente, não é lugar para criança

Faltam dados precisos sobre assédio digital – os responsáveis não costumam denunciar, por medo de expor os filhos ou prolongar o episódio. Mas evidências não faltam. No início de outubro, a revista inglesa The Economist publicou um levantamento com o site de pornografia PornHub, mostrando qual era a palavra mais buscada por usuários de diferentes países. No Brasil, a expressão mais popular foi “novinha”, originária do funk e usada para identificar garotas adolescentes ou mulheres com características muito juvenis.

A advogada e pedagoga Cristina Sleiman, consultora do Colégio Bandeirantes, de São Paulo, atende regularmente em seu escritório pais cujos filhos foram assediados em redes sociais. Ela explica que uma tática comum dos criminosos é descobrir, pelo próprio serviço, o nome dos pais do menor. Depois, exigem que a vítima envie fotos sem roupa, sob ameaça de matar seus pais. “Imagine isso sendo dito a uma criança de 8 anos”, diz Cristina. “Elas costumam mentir para os pais durante um tempo, com medo de que algo aconteça. Quando contam, o estrago já está feito.”

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As redes sociais tentam ajudar, mas tem Pais que não colaboram

Rede social, definitivamente, não é lugar para criança

Para evitar casos assim, a maior parte das redes sociais estabelece uma idade mínima para o usuário. Está nas regras do Facebook: “Você não deve usar o Facebook se for menor de 13 anos”. O mesmo vale para Instagram, Pinterest, Snapchat e Twitter. No YouTube, crianças podem assistir, mas apenas adolescentes a partir de 13 anos podem criar um canal (para crianças recomendamos o Youtube Kids, que tem um rígido controle de seu conteúdo e segmentação por idade). O WhatsApp define limite maior, de 16 anos. Mas, segundo o estudo da Officina Sophia, ao menos 62% das crianças entre 7 e 12 anos usuárias de internet acessam uma rede social. Espontaneamente, mencionaram Facebook, WhatsApp, YouTube, Twitter e Snapchat. Ou seja, nenhuma delas poderia usar nenhum desses serviços.

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A curiosidade é natural e saudável, e deve ser estimulada. Mas os pais têm de acompanhar as ações dos filhos e suas descobertas. Isso vale na rua e também nos ambientes virtuais. “É importante que as crianças aprendam o conceito de público e privado”, diz Patrícia Cintra, diretora pedagógica da Escola Eduque, de São Paulo. “Uma vez que elas colocam uma foto ou um conteúdo qualquer em seus perfis, pode ser impossível voltar atrás.” A escola tem alunos de até 11 anos e não permite o uso de smartphones durante o período de aula. Incentiva o acesso a tablets, mas com aplicativos e rede próprios. “Mesmo quando a família tem um perfil coletivo, deixamos claro para os pais essa relação entre o público e o privado.”

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Cuidado para não expor seus filhos

 

Rede social, definitivamente, não é lugar para criança

Frequentemente, os próprios responsáveis expõem demais os filhos nas redes sociais. Não veem problema em publicar imagens de crianças usando pijamas, tomando banho ou usando roupa de praia. “Os pais estão deslumbrados com a tecnologia, andam para lá e para cá com o pescoço abaixado, olhando o smartphone”, diz Naira Maneo, diretora da Officina Sophia, responsável pela pesquisa. A falta de discernimento chega a extremos. Em julho, um tribunal de Évora, em Portugal, proibiu os pais de uma menina de publicar fotos da filha no Facebook. “Tão natural quanto garantir a saúde e a educação dos filhos, é o respeito pelo direito à imagem e à reserva da vida privada”, afirmou o juiz.

Não se questionam os benefícios oferecidos pela tecnologia. Mas seus eventuais efeitos colaterais exigem avaliação. O assédio virtual, como no caso do programa MasterChef Júnior, é só um dos problemas que as redes sociais podem acarretar, com o crescente uso por crianças com menos de 13 anos. Elas são também expostas a cyberbullying e podem ser usadas por sequestradores e ladrões na busca de informações pessoais sobre a família. Há alguns sinais alentadores. Uma pesquisa da empresa de segurança digital Kaspersky mostrou que a preocupação dos pais com o acesso dos filhos às redes sociais vem aumentando. Em 2013, somente 22% dos responsáveis se diziam receosos de seus filhos acessarem esses serviços. Em 2015, essa parcela aumentou para 54%.

A estratégia dos pais não deveria ser tratar a internet e os aplicativos como vilões. É preciso tratar as redes sociais como qualquer área ou atividade de risco existente no mundo físico. “Minha filha não pode mexer no fogão, sair de casa sozinha e usar o Facebook”, diz a consultora de redes sociais Liliane. Alguns pais receiam que os filhos possam se tornar inocentes e atrasados, diante de uma geração de crianças conectadas – como se não acessar redes sociais pudesse criar uma espécie de bolha isolante. Os conectados a esses serviços não se tornam mais proficientes em nenhuma habilidade fundamental. Eles são meras ferramentas de comunicação. Quando chegar à idade em que pode interagir sozinho com estranhos e com o mundo, o adolescente saberá decidir como usá-los.

Fonte: Época

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