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Quando o amor só faz rima com a dor

Quando o amor só faz rima com a dor

Os dados de violência doméstica no Brasil são preocupantes. A cada 5 minutos uma mulher sofre violência física ou verbal no nosso país. Além disso, somos o 5º país com a maior taxa de feminicídios do mundo. Durante a pandemia, os números cresceram em mais de 20%. Os números indicam que durante o isolamento, os conflitos e tensões vivenciados pelos casais têm se intensificado ainda mais.

Bom, quando falamos em violência doméstica, geralmente pensamos logo na violência física, não é mesmo? Ela é mesmo mais fácil de identificar porque normalmente deixa marcas visíveis. Mas ela acontece de outras formas também e se intensifica quando as tensões do dia-a-dia de um casal aumentam de proporção e fogem dos limites.

A Lei Maria da Penha, que desde 2006 se ocupa dos casos de violência doméstica, nos diz que há também a violência psicológica (essa, a mais sutil delas), a violência moral, a patrimonial (quando quebra objetos e controla o seu dinheiro, por exemplo) e a sexual (sexo sem consentimento, controlar o uso de anticoncepcionais).

É um assunto delicado de se falar pois quando falamos especificamente da violência doméstica, estamos falando também de outros afetos, inclusive do amor. Mas é um amor, que se não olhado com sensibilidade, vai se apagando e dando espaço para um mal estar generalizado, causado por acúmulo de mágoas, angústias, raiva. E é nesse momento em que a única palavra que rima com amor, é dor. E é quando o laço que incialmente tinha sido efeito desse encontro, passa a ser nó. Mas será mesmo que dor é a única palavra possível pra dizer desse sentimento que nos toma e que nos faz decidir fazer laço com alguém?

Não quero dizer aqui que casais que tem conflitos sejam necessariamente casais em situação de violência. Como disse, o amor é um sentimento que pode comportar todos os afetos. Mas quero apontar aqui para a repetição dos acontecimentos, que faz com que muitas vezes a conversa e o diálogo sejam substituídos pelas ofensas ou por um silêncio extremo.

Em resumo, é quando a troca deixa de acontecer. E a violência entra justamente nesse lugar onde a palavra de um e outro já não é mais considerada e não dá mais conta de expressar aquilo que se sente. E é um ciclo no qual há a fase de tensão (quando os conflitos ficam mais intensos), a explosão (quando, de fato, a violência aparece com mais agressividade) e a fase chamada de lua-de-mel, que é o momento da reconciliação com a retomada de um certo romance e promessas de tentativas de mudanças. O ciclo se repete e, exatamente por envolver tantos sentimentos, não é fácil de se interromper.

E como lidar com esses acontecimentos? Temos as vias jurídicas de denúncia via 180 – Central de Atendimento a Mulher, mas também é necessário que haja espaço para que a palavra volte a circular. É preciso que todos esses sentimentos sejam elaborados. Que os homens se responsabilizem e, no caso das mulheres (que são os números que eu trouxe aqui), é importante que criem suas próprias ferramentas para romper ou lidar com essa situação.

Há vários sinais de que um relacionamento tem te afetado negativamente, por isso é importante que você se conheça, conheça seus limites e que faça escolhas mais conscientes na relação e, principalmente sobre si. Assim é possível pensar em construir novas narrativas. E se, como diria Cazuza, “o nosso amor a gente inventa”, por que não pensar em inventar, então, novas formas de amar e de ser amado?

Papo de Pai
Caroline Mello
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Sou pesquisadora do tema da Violência Doméstica, Mestranda no Programa de Pós Graduação em Comunicação da UFJF. Sou interessada pela Psicanálise e pelos debates em torno da construção do feminino e do masculino na contemporaneidade.

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