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Filhos em desempenho industrial, por Fernando Gurjão Sampaio

Filhos em desempenho industrial, por Fernando Gurjão Sampaio

Achei vital não encarar a pandemia com crianças como espécie de competição, ou de busca permanente por resultados e produtividade, como se fossemos uma pequena empresa precisando se destacar no mercado.

Antes da pandemia havia tempo para tudo: para a brincadeira, para o banho, para o dever, para refeições e para a tevê. Talvez, quando tudo isso começou, nós tenhamos tentado seguir essa estrita rotina, mas, com o passar dos dias, percebemos que a saúde mental a ser mantida não era só a nossa, mas de nossos filhos também.

Filhos em desempenho industrial, por Fernando Gurjão Sampaio - Papo de Pai

Reações: quando Íris, 03 anos, soube que o avô estava saindo para resolver algumas coisas, gravou um áudio doloroso pedindo para ele se cuidar, para não se machucar e que ela ficaria triste se algo acontecesse com ele.

Foi o primeiro sinal.

Depois, ainda no começo de tudo, quando os casos não eram tantos em Belém, propus uma volta de bicicleta na praça que fica em frente de casa, com parada para dar comida aos peixes.

Achei que seria uma boa, diante do confinamento que já durava duas semanas e estressava Íris. Foi indescritível o pavor de minha filha ao notar pessoas transitando na rua normalmente, algumas até sem máscaras.

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- Pai, diz pra eles irem pra casa – me pediu, meio chorosa.

Tive que explicar que eles precisavam estar na rua, que precisavam trabalhar, mas que tudo ficaria bem com eles. E, logo em seguida, quando chegamos na praça, Íris me abraçou forte e perguntou.

- Pai, cadê o corona? Ele é grande, igual cachorro?

Naquele momento deixei de lado minha ingenuidade de achar que somente nós, adultos, estávamos sofrendo com as angústias da pandemia que grassava o mundo.

Filhos em desempenho industrial, por Fernando Gurjão Sampaio - Papo de Pai

De imediato, paramos de assistir aos jornais na frente deles, assim como paramos de comentar sobre nossos doentes e mortos. Passou a ser assunto restrito e discreto.

Disso tudo surgiram decisões que nos pareceram lógicas: a escola seguia nos atolando de deveres, aulas on line e incumbências difíceis de equilibrar com toda a rotina de arrumação de casa, cozinha, limpeza, cuidado com as crias, mais o teletrabalho.

Para selar de vez, Íris despertou uma enorme antipatia pela plataforma e por aquele contato digital distante e frio, tão diferente dos abraçares e beijares do dia a dia da escola.

Então, tem aula todos os dias – mas, após conversar com a pequena, decidimos que só teria aula quando ela estivesse se sentindo bem para aquilo – e, vejam: falo de uma criança de 3 anos, realidade de ensino e responsabilidades totalmente diferentes de uma menina de 07 ou 12 anos, quase plenamente cientes de suas responsabilidades acadêmicas.

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Felizmente, a corroborar nossa decisão, a escola resolveu entrar de férias no mês de maio, duas semanas após o início das aulas on line, e foi engraçado perceber o alívio de todas as mães no grupo dos pais, pois todos estavam passando pela mesmíssima angústia.

Depois, relaxamos sobre as regras de refeição, sempre feitas à mesa, sempre que possível com toda a família junta. “Vamos jantar no chão da sala hoje?” “Vamos almoçar assistindo um filminho?”, e pequenas alterações como essas, que foram salutar pela alegria da novidade.

Televisão foi outro exemplo grandioso. Como afastar o tédio em um apartamento que, apesar de não ser pequeno, tem suas limitações.

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Como fazer com todos os livros já lidos duas, três vezes? Com as brincadeiras já brincadas centenas de vezes? A televisão pode ser um excelente canal para a distração dos pequenos, ainda mais se houver participação dos pais na escolha da programação, e se você estiver no meio de uma pandemia mundial.

Descobrimos novos desenhos. Baixamos filmes novos e aprendemos coreografias e letras de músicas dos filmes favoritos. O que era uma emoção exclusiva da filha se tornou um grande chamego, pai e mãe ao lado sabendo de cor os passos de Frozen e Frozen II.

Além disso, é possível encontrar na tevê de bons programas que, sem o aspecto do horror da pandemia, são capazes de ofertar boas lições às crianças.

Um exemplo é o Quintal da Cultura, programa infantil que passa de segunda a sexta em dois horários (manhã e tarde), e ainda faz maratona aos sábados. No Quintal eles falam de forma didática e lúdica sobre o corona, ensinando as crianças a lavarem as mãos e sobre a necessidade do isolamento.

Filhos em desempenho industrial, por Fernando Gurjão Sampaio - Papo de Pai

E, claro, a criatividade paterna foi explorada como poucas vezes antes. Palitos de picolé deram lugar a uma linda casinha de bonecas. Palitos, cola quente, uma pequena noção de arquitetura para leigos e tinta. A casinha virou o xodó da criançada, e só não foi maior porque acabou a cola quente.

E teve o dia em que Íris quis me pintar com tinta guache. E o dia em que quiseram cortar meu cabelo. Tudo foi permitido com um único e real objetivo: preservar a saúde mental de nossos filhos, transformando a loucura do mundo, lá fora, em normalidade e amor aqui dentro.

Blindamos tanto nossas crianças – que não precisam, agora, ter nenhuma noção crítica do que está acontecendo – que, ouso dizer: talvez elas sintam saudades do tempo em que estivemos trancados em casa, sem ver vovô, sem ver vovó e dindo, sem ver as babás e sem sair para os passeios preferidos deles.

Filhos em desempenho industrial, por Fernando Gurjão Sampaio - Papo de Pai

Transformar esse tempo horrendo em lembrança cheia de afeto e amor, de segurança e calma, talvez tenha sido o mais trabalhoso e belo trabalho que eu e Lívia tivemos. Acho, sem falsa modéstia, que conseguimos.

As crianças, tão pequenas, livres de serem máquinas de produção em série no meio do mundo que desmoronava, livres para serem crianças felizes e certas de estarem em segurança.

Sinta-se orgulhoso de não ter causado esse dano irreparável no seu filho. E livre-se das culpas pela lição deixada para depois, a louça largada na pia para ser lavada mais tarde, ou o tempo excedente na frente da tevê. Livre-se de qualquer culpa.

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E fica um lembrete: A pandemia ainda está nas nossas portas. Há números díspares que informam a diminuição de casos, mas também números alarmantes.

Significa dizer que não vai ser amanhã que mergulharemos nossos pés na areia da praia apreciando um feriado no litoral. Talvez seja em agosto, talvez em outubro. Talvez, somente em 2021.

Não é alarmismo, mas, sim, realismo. O que vai nos liberar à plena normalidade serão sinais claros de que o mundo voltou a ser seguro.

Enquanto isso, nosso trabalho como pais está longe de terminar. Seguimos na busca de preservá-los disso tudo, de mantê-los saudáveis, sem medos e desesperos, torcendo para que só aprendam sobre os horrores e medos dessa época daqui muitos anos, pelas páginas dos livros de história.

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