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Como a ideologia pode destruir relações familiares

Como a ideologia pode destruir relações familiares

Seja qual for a sua idade, muito provavelmente já presenciou ou até viveu momentos tensos de conflito geracional ou ideológico, seja em família ou em meio as pessoas de convívio mais próximo. Afinal, quem nunca teve um tio que banca o cientista político ou professor pró luta armada/ditadura?

Talvez muitas pessoas ainda vejam os conflitos geracionais como algo dissociado do aspecto político, mas fato é que o Brasil tem vivido um de seus períodos mais ideologicamente polarizados e inegavelmente, vez ou outra, questões políticas têm tomado proporções enormes e provocado até mesmo o desgaste familiar.

Mas, se tem procurado se distanciar desse tipo de discussão não se preocupe, o propósito desse texto não é defender direita ou esquerda, até porque creio sermos maiores que tudo isso, mas sim demonstrar como essas questões podem estar afetando a saúde de nossas relações.

Sabemos que os conflitos geracionais são provocados não só pela distinção no estilo de vida, já que hoje em dia não mais vivemos como a 10 ou 20 anos atrás, mas pela forma como a sociedade em geral têm se configurado e dividido nos últimos anos, a ponto de por vezes desfazer ou ignorar os laços familiares.

Se por um lado isso pode parecer positivo, já que garante uma maior independência intelectual e maleabilidade discursiva, sobretudo das novas gerações, por outro pode sinalizar um sério problema.  Isso porque a falta de diálogo e a ausência de um antagonismo saudável são problemas estruturais não só para as famílias mas para a sociedade quase que como um todo.

A última eleição presidencial é uma clara prova disso, desde então muito têm-se discutido sobre a forma como a politica tem invadido os encontros em família e dividido a mesa com assuntos delicados de fórum íntimo e particular.

Evidente que muitas pessoas buscam evitar esse tipo de assunto como forma de amenizar os conflitos em casa, mas seria a troca de assunto ou a proibição desse tema a solução para esses conflitos?

O comportamento feminino já não é mais o mesmo, e mesmo nos homens que por vezes cedemos as mudanças com maior resistência, percebemos como ter uma conversa seja em família ou em grupo de colegas/amigos já não é tão simples e leve como antigamente, seja qual for o assunto muito provavelmente alguém da roda vai levar a discussão para um dos lados da polarização e apontar um culpado político a qualquer momento.

Acredite, o problema não está no mero debate político, mas sim na forma como o mesmo é conduzido a maior parte das vezes. Durante anos grande maioria de nós abdicou da compreensão e preocupação política, tanto que esse ainda é um tabu, até mesmo nas escolas, e a ausência de estudos e análises sobre essa temática culminou no momento em que vivemos. 

Onde por vezes uma parcela considerável da população se vê indignada com o comportamento de determinados representantes políticos, mas na hora do voto ou da reivindicação ainda carece de aporte teórico ao ponto de depositar sua confiança nos candidatos errados.

Perder a paciência com um parente mais velho por ele considerar determinado comportamento/pensamento do qual você é adepto errôneo e imprudente, está longe de parecer uma solução, cortar os laços e evitar qualquer tipo de contato e comunicação mais ainda.

Sendo assim qual seria o comportamento ideal?

Fato é que ninguém está 100% preparado a todo momento e sempre corremos serio risco de incidirmos na intolerância, ainda estamos nos adaptando enquanto sociedade e em meio a esse processo toda possibilidade de dialogo deve ser bem aproveitada, é correto sim corrigir sempre que preciso e oportunizado, mas, precisamos priorizar a nossa saúde emocional e familiar, vale muito mais a pena dormir com a consciência plena respeitando a ignorância ou desconhecimento daquele amigo ou parente enviesado politicamente, que provocar traumas maiores em nome da razão.

Frente a todo esse caos não podemos nos esquecer ainda das novas gerações e a forma como têm sido confuso pra elas construir suas certezas e posicionamentos em meio a tanta discussão e variabilidade política.

As crianças e os jovens de hoje precisam sim ter acesso ao conhecimento político, afim de evitar futuramente os dilemas comunicacionais que hoje estamos vivendo. Entretanto, é preciso cautela e atenção afim de garantir que esses ensinamentos se deem por meio de aporte teórico e profissional, sempre que possível conduzido por estudiosos e não apenas por militantes.

Tem sido muito comum na cena nacional a presença de discursos a favor da tolerância e do pluralismo de ideias, em contrapartida, o que percebemos é uma "tolerância seletiva" ou melhor "à brasileira", tolerância essa que mostra-se praticável apenas para com aliados político-ideológicos, uma nítida hipocrisia na qual vemos crescer em proporções cada vez maiores.

Toda essa hipocrisia já naturalizada entre a classe política e que por vezes se estende a uma parcela artística e "influenciadora" é, em suma, na maioria das vezes amparada por toda uma plateia ainda menos instruída e disposta a reproduzir todo um conjunto de jargões clichês repletos de fake news  e preconceitos.

Tudo isso tende a culminar no que ao meu ver pode ser o fator mais temerário em meio a todo esse processo, a nossa sociedade que sempre se deixou levar bem mais por polêmicas e pela informação de fácil consumo e que só agora decidiu dar atenção a política, ignora o ensino formal, a História e a Ciência, e então decide se educar pelos clickbait's que recebe pelo Whatsapp.

Diante disso, formamos gerações que mais se preocupam em ocupar um lugar em meio a toda essa discussão, e se entenderem como direita ou esquerda afim de apontar o dedo na direção contraria e indicar o erro, que buscar de fato compreender todo esse processo, abrir campo para o dialogo e por fim em toda essa intolerância. 

Enquanto sociedade evoluímos bastante ao desejarmos debater política, mas nos esquecemos  de estudá-la adequadamente,  ainda enfrentamos sérios problemas na hora de definir o que é opinião, liberdade de expressão e discurso de ódio, mas por mais que pareça estranho e aterrorizante em um primeiro instante, todo esse desgaste provocado atualmente pode garantir futuros avanços em termos de comunicação e funcionamento social, basta que saibamos atenuar e dirigir o foco da discussão, afinal deveríamos começar defendendo mais ideias e menos ídolos/partidos políticos.

 

 

Papo de Pai
Fábio Júnio
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Fábio Júnio, Professor, técnico em Magistério e discente de L. Pedagogia, fascinado pela docência, ensino e educação. Numa urgência, sem pressa!

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